quarta-feira, 17 de maio de 2017

SÚPLICA E OUTROS POEMAS DE GABRIEL CISNEROS

SÚPLICA

Senhora, escuta a oração
de quem perdeu
a origem e o firmamento,
não hesites mais

Ergue-te dentre os mortos!

Sangue que alça
calendários
na necrópole
onde dorme
a titereira
do meu espaço sem destino,
sereia do mar Egeu,
apocalipse
abismo das fendas.

Penélope,
dói-me o esperma
encadeado às formas
das tuas costas
não sei quantas batalhas
tenho perdido
perante donzelas
que se vestiram
graças às tuas galas,
nem as vezes que gritei
no abismo dos escaravelhos
para saíres dentre os mortos
e dançares sobre a lua
antes de desmembrares as minhas partes.

Senhora, escuta a oração
de quem perdeu
a origem e o firmamento,
não hesites mais.

Ergue-te dentre os mortos!


AO AMOR SEM ESPERANÇA 

Não é esse amor que guardam numa caixa
para ser vendido como uma bagatela
a corpos cansados
que nas endorfinas
tentam esquecer o tédio,
nem o que se consuma
como a proa de um veleiro afundido
no oceano de serpes
que perderam o rasto por trás da neblina do porto

Este amor é como uma viagem
à lua, ao tempo, à terra em cento e oitenta sinais,
ao enxofre que negamos
na fórmula dos alquimistas,
na escuridão onde o corpo
tremeu pela primeira vez
e permitiu que os continentes naufragassem.

Não te minto,
nesta impossibilidade de te tocar vendi a alma
a um exército invencível de mulheres
com que não consigo desvelar a adivinha
com que os teus olhos crucificaram
o meu respirar das tuas perfeitas nádegas,
do teu sexo onde não consegui plantar o cedro
que me aconchegue na morte.

Neste amor que me faz escrever
com a vaga esperança
que alguém herde o teu sangue,
chore no futuro ao lado de um violino carcomido
com os meus versos
e assim, sem vontade, tu me ames
e no êxodo as palavras quebrem paredes
e possa tocar-te,
como a aura à primeira pétala
ou o sol no rosto escuro
de um elétrico que nunca caminhou na luz.

É este amor que continua a te nomear
com a raiva
de quem lança a primeira pedra
porque se cansou de ocultar os seus pecados.


O CAFÉ E O AMOR 

Bebíamos café
a empurrarmos o ocaso para a falésia,
sem nos atrever a olhar
para a areia compreendida numa bolha
que nos esvaecia.

Preto, quente, proibido
numa chávena a vida eterna resumida.

O desembarque e os exílios eram nada,
como bater os tacos
sobre o mar para que chova
e morrer afogados cara a cara
nas sementes que nunca floresceriam.

Premonição
da dor sobre as almas,
sorvo-te ainda no café
e embora estejas feliz trás
a inocência da tua gaiola.
por vezes penso que te tenho
numa chávena.

© Texto: Gabriel Cisneros Abedrabbo, 2017
© Tradução: Xavier Frias-Conde

BORBORETAS E OUTROS POEMAS DE KIRA KARIAKIN

BORBORETAS

Não entendo o meu destino
vivo suspensa
na trama das borboretas

não desço para os dias futuros
não padeço dor
habito-o sem reservas
com o peito encerrado

não sou a mulher que quis ser
planificaca errada

não tenho arrependimentos
apenas tristezas íntimas
escondidas
que agasalham o quotidiano

não espero a ledice
persigo-a
conquisto-a em cada entardecer
em cada cintilar da noite

não durmo
a vigília é o paroxismo do sonho
da alma atenta
ao voo das borboretas

RITUAL

A água ferve
a chaleira assobia

decido

se for de manhã
o chá será forte

preto

se o crepúsculo
for promissório
a mistura será
afumada e oriental
do contrário
aromatizada à inglesa

as noites e a vigília
são acompanhadas
por perfumes de tangerina
cidreira
sabores de frutos outonais

a xícara acolhe o momento

o paladar   a língua    o olfato
convergem
na verdade do primeiro trago

o meu corpo recebe
comunhão


[TENHO UM OCO NO CORAÇÃO]

Tenho um oco no coração
é seco e escuro

se introduzir um dedo
sinto a aspereza
da areia oculta
das minhas securas
e a negrura densa
que aperta como uma jibóia
insone e insatisfeita

o meu coração
é torto de sentimentos

o vento nele não encontra ninho
nem a luz repouso

eu vivo com um oco cego
no peito

© Texto: Kiria Kariakin
© Tradução: Xavier Frias Conde

sábado, 8 de abril de 2017

LÁ FORA CRESCE A ÁRVORE, DE DANIELA GAITÁN



AFUERA CRECE EL ÁRBOL

Formas de decir afuera afuera crece el árbol sin mencionar
La hierba el rocío la raíz sol en las ramas
Sin que la evolución sea detenida…
Hace tantos tantísimos años
Millones de años
Millones de milenios
                                 Cráneo grande
                     Mandíbula explayada de forma antiestética
Desconocida aún la fonología: parte de la lingüística que estudia los fonemas o descripciones teóricas de los sonidos vocálicos y consonánticos que forman una lengua
Apenas la costumbre del sobreviviente.

Millones de milenios adelante
Cráneo extraño
Mandíbula injusta                         aprender el fuego aprender las rocas
                                                           El uso homohumano
El cueva la nido
los fenómenos de entonces no desvelaron el misterio de
cómo regresar al nidoprimero uterodelaverdadera
que no,
tristemente
tampoco hoy concebimos.

Eslabón evolutivo, tantísimos años de distancia entre nosotros,
Sintiendo frío,
Más que frío, hambre absoluta
De homosapiens absoluto.
Tú, cerebro estilizado, lejano de toda la historia arqueológica que te acaece:
Danos, por favor, fuerza de voluntad, que nos alcancen
Los nidos para introducir los dientes, al menos

mientras sigue la raíz extendiéndose sub-terra-nea-mente
cual vena de sangre espesa− no se detiene





Afuera: crece el árbol, hace sol, sopla el viento, tiemblan las hojas, se secan los frutos, se mueven los pájaros, se encuentran las gentes, habita el futuro

Y digo futuro
Y todo viene a mí mas el árbol va en su camino al cielo
Su camino divino.

Bastará una palabra para alterar la suma de tantas verdades:

Afuera /todo continua, no sigue, solo continua/
Crece el árbol
Hace sol
Sopla el viento
Tiemblan las hojas
Se secan los frutos
Se mueven los pájaros
Se encuentra la gente
Habita el futuro empieza a llover

Y digo llueve
Y el presente simple y sin adornos rebota sobre las sienes de cualquiera, no es así acaso como rebota la historia la precariedad de nuestras estructuras:

Voy al nido
Para salir más tarde, nuevamente, otra vez. Ésta vez
Tal como lo hace el árbol allá. Afuera.


LÁ FORA CRESCE UMA ÁRVORE

Formas de dizer lá fora cresce a árvore sem mencionar

A erva da orvalhada a raíz do sol nos ramos
Sem que a evolução seja detida...
Há tantos tantíssimos anos
Milhões de anos
Milhões de milénios

                                 Crânio grande

                     Queixo espalhado de forma antiestética
Desconhecida ainda a fonologia: parte da linguística que estuda os fonemas ou descrições teóricas dos sons vocálicos e consonânticos que formam uma língua
Só o costume do sobrevivente.
                                 
Milhões de milénios por diante
Crânio estranho
Queixo injusto                        apreender o lume apreender as rochas

                                                           O uso homohumano

O cova  a ninho
os fenómenos daquela altura não revelaram o mistério
como voltar para o ninhoprimeiro uterodaverdadeira
que não,
tristemente
tampouco hoje concebemos.

Elo evolutivo, tantíssimos anos de distância entre nós,

A sentirmos frio,
Mais do que frio, fome absoluta
De homosapiens absoluto.
Tu, cérebro estilizado, longínquo de toda a história arqueológica que ťe acontece:
Dá-nos, por favor, força de vontade, que nos alcancem
Os ninhos para introduzir os dentes, ao menos
enquanto continua a raíz a espalhar sub-terra-nea-mente
-como veia de sangue espesso- não se detém.



Lá fora: cresce a árvore, vai sol, sopra o vento, tremem as folhas, secam os frutos, mexem os pássaros, encontram-se as pessoas, mora o futuro

E digo futuro

E tudo vem para mim, mas a árvore vai no seu caminho para o céu
O seu caminho divino.

Chegará com uma palavra para alterar a soma de tantas verdades:


Lá fora /tudo continua, não prossegue, só continua/

Cresce a árvore
Vai sol
Sopra o vento
Tremem as folhas
Secam os frutos
Mexem os pássaros
Encontram-se as pessoas 
Mora o futuro | começa a chover

E digo chove

E o presente simples sem adornos quica nas têmporas de qualquer um, não é assim portanto como quica a história a precariedade das nossas estruturas:

Vou ao ninho

Para saír mais tarde, novamente, outra vez. Esta vez
Tal como faz a árvore aí. Lá fora.

© Texto: Daniela Gaitán
© Tradução: Xavier Frias Conde

quarta-feira, 29 de março de 2017

MÃE, DE YULIANA ORTIZ RUANO

Madre,
sueño con mi cadáver todas las noches.
De mi vientre cuelgan dos seres que no quisieron nacer.
He renunciado a todo lo que me hacía infeliz.
He renunciado a todo.
He renunciado.
Solo hasta que te arrancan a dos manos el esternón
abres los párpados
y barres las costras secas
que tapizan el piso de tu cuarto.
Solo hasta que alguien mete su mano en tu ombligo
y extrae una víscera sangrante
que late caliente al aire
conviertes en arcilla la casa
y la intentas moldear
o la aplastas de una vez.
Madre,
tengo veinte y tres años
y parece un siglo.

Sueño con mi cuerpo tieso
todos los días.
He renunciado a tanto y
¿por qué
estas ganas de llorar?
¿Por qué las heridas
suturadas se abren y sangran otra vez?
¿Por qué el silencio
que diseca mis huesos?
¿Por qué la puerta sigue cerrada
frente a mi rostro?
He renunciado a mí.
He renunciado.
Me abandoné cada tarde.
Yuliana espera por mí
en alguna estación lejana.
Impaciente;
se come las uñas,
los dedos.
Yuliana se come.

Madre,
sigo hablando de mí
a la gente
como si esto importara.
Como si la manta se levantara
y me dijeran
que deje de llorar
que todo fue una broma de mal gusto,
que ahora puedo reírme
a carcajadas de mí
y de mi vientre.

Que todo ha sido una broma
de muy mal gusto.
Que esto no soy yo
que afuera de la manta
hay vida en serio.
Madre,
he renunciado a todo lo que me hacía infeliz.
¿Por qué la muralla sigue creciendo?
Madre,
no debí salir de tu vientre.
Mira mis huesos.
Mira su fragilidad.
Mira los días
que se posan lilas
bajo mis ojos.
Mira mis manos
transparentes.
La muralla tiene vida.
A mi alrededor todo exhala más vida que yo.


*  *  *

Mãe,
sonho com o meu cadáver todas as noites.
Do meu ventre penduram dous seres que não quiseram nascer.
Renunciei a tudo o que me fazia infeliz.
Renunciei a tudo.
Renunciei.
Só até que ťe arrancam com as duas mãos o esterno
abres as pálpebras
e varres as crostas secas
que tapizam o chão do teu quarto.
Só até quando alguém mete a mão no teu embigo
e extrai uma víscera sangrante
que lateja quente no ar
convertes em argila a casa
e tentas moldar nela
ou esmaga-la de vez.

Mãe,
tenho vinte e três anos
mas parece um século.

Sonho com o meu corpo teso
todos os dias.
Renunciei a tanto, mas
por que esta vontade chorar?
Por que as feridas
suturadas abrem e sangram outra vez?
Por que o silêncio
disseca os meus ossos?
Por que a porta está ainda fechada
diante do meu rosto?
Renunciei a mim.
Renunciei.
Abandonei-me em cada tarde.
A Yuliana fica à minha espera
nalguma longínqua estação.
Impaciente;
come as unhas,
os dedos.
Yuliana come-se.

Mãe,
continuo a falar de mim
para a gente
como se isso interessar.
Como se a coberta se erguer
e me disserem
que pare de chorar,
que tudo foi uma brincadeira pesada,
que agora posso rir
às gargalhadas de mim
e do meu ventre.

Que tudo isto foi uma brincadeira
muito pesada.
Que isto não sou eu
que para além da coberta
há vida a sério.
Mãe,
renunciei a tudo quanto me fazia infeliz.
Por que a muralha continua a crescer?
Mãe,
não devi sair do teu ventre.
Olha os meus ossos.
Olha a sua fragilidade.
Olha os seus dias
que pousam lilás
sob os meus olhos.
Olhas as minhas mãos
transparentes.
A muralha tem vida.
Ao meu redor tudo exala mais vida do que eu.

© Texto: Yuliana Ortiz Ruano
© Tradução: Xavier Frias Conde

domingo, 5 de março de 2017

TRÊS POEMAS DE OSWALDO GUERRA

BAJADA  A LA PLAYA, UNA MAÑANA LABORAL 

Me abro al Paseo por entre callejas
multicolores, al dibujo diáfano
de la playa y su mar tranquilo ahora.
Estoy dentro de la playa, cegado
por tanta claridad, engatusado
por tan calmo aire. Como si no hubiera
nadie (niños, ancianos casi quietos):
el silencio anda lejos, endormido.
Me descalzo los pies. Hundo al momento
mis dedos en el fino grano. Entro.
La mar habla a los bañistas, susurra
con su achicada lengua una inquietante
promesa, arrulla sus cuerpos salados,
a que penetren en su enorme vientre.
Me toca el agua. Está fría. Se espuma.
Atrás queda el Paseo, sus casitas
bajas, y más al fondo la monstruosa
ciudad, su ruido portuario, sus calles.
Recuesto la cabeza hasta sentir
el cielo, y sólo escucho el cielo arriba.
Todo lo que hay en él está escondido
en los granos de mi playa, ocultado
en sus castillos leves, en los gritos
acompasados de aquel barquillero,
en la voz de sirenas voluptuosas…
Me quedaré por el resto del día
a ver qué más escucho.
(De Un rumor bajo la rama, 2012)

DESCENSO À PRAIA, UMA MANHÃ DE TRABALHO


Abro-me ao Passeio por entre ruelas
multicolores, ao desenho diáfano
da praia e do seu mar agora tranquilo.
Estou dentro da praia, cegado
por tanta claridade, afagado
pelo ar tão calmo. É como se não houver
ninguém (crianças, anciãos quase quietos):
o silêncio fica longe, adormecido.
Descalço os pés. Afundo ao instante
as minhas dedas no fino grão. Entro.
O mar fala para os banhistas, sussurra
com a sua língua minguada uma inquietante
promessa, arrola os seus corpos salgados,
para penetrarem no seu enorme ventre.
Toca-me a água. Está fria. Vira espuma.
Atrás fica o Passeio, as suas casinhas
baixas e mais para a frente a monstruosa
cidade, o seu barulho portuário, as suas ruas.
Apoio a cabeça até sentir
o céu, e apenas sinto o céu por cima.
Tudo quanto nele há fica escondido
nos grãos da minha praia, oculto
nos seus castelos leves, nos gritos
acompassados daquele vendedor de barquilhos,
na voz das sereias voluptuosas…
Ficarei o resto do dia
para ver que mais escuto.



CRÍTICA DE LA BELLEZA
[Mito del canto rodado y la arena]

Cuando atardece no es solo última luz sino son lo que se impone. Frente a un mar-ola el canto rodado, mucho antes que arenisca, se golpea a sí y a sus otros infinitas veces hasta lograr cierta sinfonía. Y quien ve la arrebolada cree saber  —ah, pequeño dios— de la más alta belleza, hasta que poco a poco incluso el calor del subtrópico se apaga ante un orquestado rumoreo. Diminuto instante en que Aquello y Uno somos casi lo mismo, aún sin saberlo. Rueda y vuelve, rueda en canto sin que veamos nada de nada con los ojos del placer. Placer era el sol caliente que sexuaba nuestra piel hermosa. Placer era.

Los litófonos hacen ahora llamada antes de volverse arena silenciosa. Jamás serán vistos de noche, pero serán el pulso que por un solo instante —en la certeza de que ya el Eros y la Venus playera son simples despojos de Música en este lar africano— darán sentido al corazón que quiere desasirse del cuerpo.
(De Muerte del ibis, 2013)

CRÍTICA DA BELEZA
[Mito do seixo rolado e a areia]

Quando entardece não é apenas a derradeira luz, mas é o som que se impõe. Perante um mar-onda o seixo rolado, muito antes do que arenisca, bate-se a si próprio e os seus outros infintas vezes, até alcançar certa sinfonia. Quem vir o ruivém crê saber —ah, pequeno deus— da mais elevada beleza, até que aos poucos o calor do sub-trópico desce por um orquestrado rumor. Diminuto instante em que Aquilo e Um somos quase a mesma cousa, embora não o saibamos. Roda e volta, roda como seixo sem vermos absolutamente nada com os olhos do prazer. Prazer era o sol quente que sexuava a nossa pele formosa. Prazer era.

Os litofones fazem agora o seu chamado antes se tornarem areia silenciosa. Jamais serão vistos à noite, mas serão o pulso que, apenas por um instante —na certeza que já o Eros e a Vénus praieira não são senão despojos de Música neste lar africano—, darão sentido ao coração que quiser libertar-se do corpo.



PALABRA LUZ


Envidio al calígrafo sufí que pacientemente engasta una palabra en otra
para acercarse al resplandor de la Montaña sagrada,
mientras yo busco con el extraño cosido entre una palabra y otra el sentido de una vida.

(De Si existe el árbol. Cuaderno iraní, Inédito)

PALAVRA LUZ

Invejo o calígrafo sufista que pacientemente engasta uma palavra em outra
para se aproximar do resplandor da montanha sagrada,
enquanto eu procuro com a estranha costura entre uma e outra palavra o sentido de uma vida

© Texto: Oswaldo Guerra
© Tradução: Xavier Frias-Conde

domingo, 26 de fevereiro de 2017

1969 E OUTROS POEMAS DE GABY RUIZ



1969

Mi nombre es región en este viaje...
el tiempo perfuma las sombras entre montañas
los nogales se reclinan a beber en el río bravo
desde el vértigo

Mi nombre es región en este viaje...
es hora de bañarse bajo la lluvia
nos tomaremos de las manos
desde las orillas

Mi nombre es región en este viaje...
vuelvo a mi vacío favorito, el calor
ungida por la tierra
como la tangente inmortal al finalizar el invierno transparente


1969

Meu nome é região nesta viagem... 
o tempo perfuma as sombras entre montanhas
as nogueiras reclinam-se para beber no rio bravo
desde a vertigem

Meu nome é região nesta viagem... 
é hora de tomarmos banho sob a chuva
segurar-nos-emos as mãos
desde as beiras

Meu nome é região nesta viagem... 
volto para o meu vazio preferido, o calor
ungida pela terra
como a tangente imortal ao finalizar o inverno transparente


NUEVAS PRIMERAS VOCES

Me sorprendió un silencio de coyotes
porque respiraba la noche
porque yo era luna parda
y me despeinaban los saguaros tiernos del camino
como hermanos que te abrazan

Mis labios se mojaron en aureolas líquidas
llanto alegre de la Sierra Madre que bebí.
Fue la cosecha fresca del tejuino
hirviendo en los pómulos.
Yo y mis hermanas corrimos.

Podías llamarme desde el vacío de nombres
porque llovía y rugía mi corazón
porque me había hecho una mujer sabia.
Tarde-Cielo no debe tener estrellas
pero es dios cuando te grita:
"Eres una y eterna"


NOVAS PRIMEIRAS VOZES

Surpreendeu-me um silêncio de coiotes
porque respirava a noite
porque eu era lua parda
e me despenteavam os saguaros tenros do caminho
como irmãos que te abraçam

Os meus lábios molharam-se em auréolas líquidas
pranto alegre da Sierra Madre que bebi.
Foi a colheita fresca do tejuino
a ferver nas bochechas.
Eu e minhas irmãs corremos.

Podias chamar-me do vazio dos nomes
porque chovia e rugia o meu coração
porque virara uma mulher sábia.
Tarde-Céu não deve ter estrelas
mas é deus quando ťe grita:
"És uma e eterna"



MOHICANO

Emboscada
espalda y brazos extendidos,
esos frenéticos continentes
entran en combate
el salto salvaje del impulso narrativo
el duelo de las miradas
el enfrentamiento con el más oscuro enemigo
es decir, los viejos amantes
el infierno del olvido
el deseo de la venganza
eres el mortal que no perdona
el primer desposeído
emanas de mi último ocaso
del paisaje del asedio
es demasiado tarde...
mohicano desvanecido
                ¡Vienes a exterminarme!


MOICANO

Emboscada
de costas e braços estendidos,
esses frenéticos continentes
entram em combate
o salto selvagem do impulso narrativo
o duelo dos olhares
o enfrentamento com o mais obscuro inimigo
é dizer, os velhos amantes
o inferno do esquecimento
o desejo de vingança
és o mortal que não perdoa
o primeiro despossuido
emanas do meu derradeiro ocaso
da paisagem do assédio
é tarde demais...
moicano esvaído
                      Vens exterminar-me!

© Texto: Gaby Ruiz
© Tradução: Xavier Frias-Conde

terça-feira, 16 de agosto de 2016

LINHAS PARALELAS E OUTROS POEMAS DE ARI GARRIDO




LÍNEAS PARALELAS

No tocarse nunca
les duele lo mismo
que no poderse separar.


LINHAS PARALELAS

Não se tocarem nunca
dói-lhes igual
do que não se poderem separar

29/7/13

MAGNETISMO

(...)

5

Ya no se encantarán mis ojos en tus ojos,
ya no se endulzará junto a ti mi dolor.
Pero hacia donde vaya llevaré tu mirada
y hacia donde camines llevarás mi dolor.
(...)
Fragmento de Farewell, Farewell y los sollozos, Crepusculario

Pablo Neruda

Quiero un peldaño.
Uno que mida
solo un centímetro más
para tropezar siempre
en el mismo tramo
de la escalera.
Esa que da a tus ojos.
Para no echarte de menos tanto.
Para no reescribir el otoño.


MAGNETISMO

Quero um degrau.
Um que meça
apenas um centímetro mais
para sempre tropeçar
no mesmo ponto
das escadas.
essas com vistas para os teus olhos.
Para não ter de ti tanta saudade
Para não reescrever o outono. 


17/7/13­ 2/9/13


PROFESIONES

Nunca pensaste que los sueños
me mandarían tanto de los dos
para sacarlos de su área de confort
cualquier propuesta desmerece consideración.

Enrique Bumbury

Paseabas por las cenefas,
eres de ésas que decoran
aquello que ven.
Y les da sentido.
Te nombraron interiorista del año.
Y no volviste a pisar este suelo.
Pero las paredes te recuerdan
con cada retrato.


PROFISSÕES

Passeavas pelas sanefas,
és dessas que decoram
tudo quanto veem.
E dá-lhes sentido.
Foste nomeada interiorista do ano.
E não voltaste a pisar este chão.
Mas as paredes relembram-te
com cada retrato.

14/9/13

© Texto: Ari Garrido
© Tradução: Xavier Frias Conde

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

LINGUA MATERNA, DE ESPERANZA VIVES




palabras camelias. blancas espirales. sencillas. en mi cuerpo de meiga lactante que arde como los caracoles ignorados bajo la lluvia. árboles negros. cromatismo del agua lejana guardada entre las manos. eslabón hacia lentas lagartijas. carne hereje esparcida como hojas nuevas de flores discretas. hechizo hecho historia sobre el leve crujir de las cigarras. sobre las sombras rotas/rojas de la lengua. mientras me llaman madre sopla la brisa. 


palavras camélias. brancas espirais. singelas. no meu corpo de meiga lactante que arde como os caracóis ignorados sob a chuva. árvores pretas. cromatismo da água afastada guardada entre as mãos. elo face a lentas lagartixas. carne herética espargida como folhas novas de flores discretas. feitiço feito história sobre o leve ranger das carricantas. sobre as sombras quebradas/vermelhas da língua. enquanto me chamam mãe sopra a brisa.


© Texto: Esperanza Vives Frasés
©  Tradução: Xavier Frias Conde

domingo, 14 de agosto de 2016

NOVE EM CADA DEZ, DE SANDRA BARRERA

Nueve de cada diez
dentistas recomiendan que me muerdas
la espalda al menos una luna llena
al mes y mis tejidos se disuelvan
en un efervescente
universo articulado en torno
a la emoción animal de escalarte.
Juega conmigo a ser
un símbolo impregnado de poemas:
desecharemos rosa,
rutina o calendario;
escogeremos fuego,
viento y tormenta. Me desplegaré
en piel y alma entregada sobre ti.
Nueve de cada diez
astrólogos se alarman cada día
con los meteoritos que generamos
en cada amanecer.


Nove em cada dez
dentistas recomendam que me mordas
as costas ao menos durante uma lua cheia
por mês enquanto os meus tecidos se dissolvem
num efervescente 
universo articulado em torno
da emoção animal de escalar-te.
Brinca comigo a sermos 
um símbolo impregnado de poemas:
refutaremos rosa,
rotina ou calendário;
escolheremos lume,
vento e trovoada. Despregar-me-ei
na pele e na alma entregada sobre ti.
Nove em cada dez
astrólogos alarmam-se cada dia
pelos meteoritos que geramos
em cada amanhecer.

© Texto: Sandra Barrera Martín
© Tradução: Xavier Frias Conde

quarta-feira, 13 de abril de 2016

VERBUM E OUTROS POEMAS DE ROSSY EVELIN LIMA

VERBUM
Cada palabra articulada 
lleva el peso de las lenguas del mundo, 
marejadas de imágenes, 
caracolas que aún no encuentran 
                 su forma perfecta. 

Cada palabra, fonema absoluto, 
nos da de beber en sus manos 
la idea de un pasado 
que creemos para siempre. 

La palabra,
      la unidad mínima 
de expresión ardiente, 
la base de la experiencia diaria, 
los ecos y el barro 
que se amoldan a nuestra apariencia. 

Cada palabra articulada 
va formando nuestra segunda piel, 
nos llena el paladar 
      con susurros alocromáticos. 

Cada palabra articulada 
es la arena de nuestro mar, 
no existe ola que pueda llevarse el arenal 
           de nuestra orilla,
no hay sal que derrita o evapore 
el grano edificado por la palabra dicha. 

Sin importar la voz 
ni el temblor de la garganta 
la palabra siempre cae a nuestros pies 
convirtiéndose en piedra o en camino.


VERBUM
Cada palavra articulada
sustém o peso das línguas do mundo,
marulhada de imagens,
búzios que ainda não encontram
            a sua forma perfeita.

Cada palavra, fonema absoluto,
dá-nos a beber nas suas mãos
a ideia de um passado
em que acreditámos para sempre.

A palavra, 
        a unidade mínima
de expressão ardente,
a base da experiência diária,
dos ecos e da lama
que se amoldam à nossa aparência.

Cada palavra articulada
vai formando a nossa segunda pele,
enche-nos o céu da boca com sussurros alocromáticos.

Cada palavra articulada é a areia do nosso mar,
não existe onda que possa levar o areal embora
               da nossa beira, 
não há sal que derreta ou evapore
o grão edificado pela palavra dita.

Sem interessar a voz
nem o tremor da garganta,
a palavra cai sempre aos nossos pés
tornando-se pedra ou caminho.


LAS ISLAS
Somos muchas islas,
el río y el sol
oscurecen o aclaran nuestros pies,
las palabras lavan nuestras piernas.

Somos muchas islas,
en ellas construimos laberintos,
alzamos vegetaciones de concreto.
Nos dejamos caer igual que la noche
con rumores de grillos y cavernas.

A veces construimos puentes
y viajamos de una isla a otra.

A veces caminamos sin puentes
esperando renacer en otra orilla.

Somos muchas islas,
debajo de nosotros
se suspenden unos lazos infinitos
que buscan embonar en nuestra nueva vida.

Debajo de nosotros hay una piel color de caña
que busca atarse a nuestra orilla,
que habla la voz de 100 pueblos,
que busca enredarnos
como cuando en lugar de islas
éramos una sola tierra
mecida en alas de águilas, cóndores y quetzales.

Ahora somos muchas islas, 
nos llega la lluvia o la sequía
según alzamos nuestras manos.
Nos alejamos más cada día
y construimos murallas 
con cenizas y ramas secas.

Somos islas,
pero en las mañanas
cuando no hay risas en nuestra orilla
deseamos que nos lleve el viento
y tener un solo nombre.


AS ILHAS
Somos muitas ilhas,
o rio e o sol
escurecem e aclaram os nossos pés,
as palavras lavam as nossas pernas.

Somos muitas ilhas,
nelas construímos labirintos,
alçamos vegetações de concreto.
Deixamo-nos cair igual que a noite
com rumores de grilos e cavernas.

Por vezes construímos pontes
e viajamos de uma ilha para outra.

Por vezes caminhamos sem pontes
à espera de renascermos noutra beira.

Somos muitas ilhas,
por baixo de nós
flutuam uns laços infinitos
que tencionam ficar na nossa vida

Por baixo de nós há uma pele da cor da cana
que tenciona ligar-se à nossa beira,
que fala a voz de cem povos,
que tenciona enlear-nos
como quando em vez de ilhas
fomos uma só terra
mexida nas asas das águias, condores e quetzais.

Agora somos muitas ilhas,
chega-nos a chuva ou a seca
enquanto erguemos as nossas mãos.
Afastamo-nos a cada dia mais
e construímos muralhas
com cinzas e ramos secos.

Somos ilhas,
mas nas manhãs
quando não há risos na nossa beira
desejamos ser levados pelo vento embora
e termos apenas um nome.


COYOLXAUQUI
Somos muchos los que heredamos tus cascabeles,
vamos adornados, nuestra ropa es la llave
que promete abrirnos el cielo, 
pero somos pobres, no es este nuestro tiempo.

Nos afligimos en nuestras casas
y vamos cargando nuestros cascabeles
a otras patrias
donde la tierra
tal vez nos sonría. 

Aquí no hay nada para nosotros,
tu hermano hace su ronda por todas las calles.
El único tributo que acepta es nuestra sangre.
Le hemos dicho que somos hermanos,
que nuestros cascabeles son la celebración,
que nuestra lengua no ha probado el odio.

Tú sí nos escuchas, Coyolxauqui, 
nos mandas tu luz 
para que podamos cruzar las fronteras.

Es un brillo eterno lo que nos rodea.

Es un palpitar sentirte revivida
en nuestros cascabeles, 
sentirte en cada paso
y sabernos estrellas, 
alcanzando poco a poco
un pedazo de tu cielo.

COYOLXAUQUI
Somos muitos que herdámos os teus cascavéis,
vamos adornados, a nossa roupa é a chave
que promete abrir-nos o céu,
mas somos pobres, não é este o nosso tempo.

Desconsolamo-nos
em nossas casas
e vamos carregando os nossos cascavéis
para outras pátrias
onde a terra
talvez nos sorria.
 
Aqui não há nada para nós,
o teu irmão faz a sua ronda por todas as ruas.
O único imposto que aceita é o nosso sangue.
Dissemos-lhe que somos irmãos,
que os nossos cascavéis são a celebração
que a nossa língua não experimentou o ódio.

Tu sim nos escutas, Coyolxauqui, 
envia-nos a tua luz 
para podermos cruzar as fronteiras.

É um brilho eterno o que nos rodeia.

É uma palpitação sentir-te revivida
nos nossos cascavéis,
sentir-te a cada passo
e sabermo-nos estrelas,
alcançando devagarinho
um bocado do teu céu.


© Texto: Rossy Evelin Lima
© Tradução: Xavier Frias Conde

domingo, 10 de abril de 2016

TRÊS POEMAS DE MARÍA ÁNGELES PÉREZ LÓPEZ

[La mirada insolente]
para Ana Orantes, a quien su exmarido prendió fuego un 17 de diciembre de 1997
La mirada insolente
es una forma aguda como un clavo en la tierra,
contiene una porción horrible de sí misma
y apenas imagina
la depauperada humillación de estar
como si no,
del cuerpo que se arruga
y se encoge en su nudo primerizo
volviéndose ceniza, haciéndose invisible
materia degradada por el odio,
la paja que se prende con blandura.

La mirada insolente
acompaña a la mano, a la pierna insolentes
para apresar el cuerpo con el garfio del miedo
porque ella está tan sola y ya vencida,
herida de la queja y azotada
con el tizón de espanto que lleva el que es su ángel
del mal o de la ira.

La violencia insolente
hace temblar los márgenes del cuerpo
y en su lenta combustión como de encina
la tinta de las venas escribe ese calvario
cuando era profanado el templo de la carne
y en el aire se anotan garabatos, grafitis
con la voz enfangada y sucia de ese grito
que calcina los labios, las cuerdas de la boca,
“porque yo no sabía hablar
porque yo era analfabeta
porque yo era un bulto
porque yo no valía un duro”.

Oh cuerpo de papel para la hoguera.
(de El ángel de la ira, 1999)

[O olhar insolente]
para Ana Orantes, queimada viva pelo seu homem a 17 de dezembro de 1997

O olhar insolente
é uma forma aguda como um prego na terra,
contém uma dose horrível de si próprio
e mal significa
a depauperada humiliação de ficar
como se não
do corpo que se enruga
e se encolhe no seu nó principiante
virando cinza, tornando-se invisível
matéria degradada pelo ódio,
a palha que se prende com moleza.

O olhar insolente
acompanha a mão, a perna insolentes
para atrapar o corpo com o gancho do medo
porque ela está tão sozinha e vencida,
ferida na sobrancelha e surrada
com o tição de medo que leva quem é o seu anjo
do mal ou da ira.

A violência insolente
faz tremer as margens do corpo
e na sua lenta combustão como de azinheira
a tinta das veias escreve esse calvário
quando era profanado o templo da carne
e no ar se escreviam garatuja, grafitis
com a voz enlameada e suja desse grito
que calcina os lábios, as cordas da boca,
“porque eu não sabia falar,
porque eu era analfabeta,
porque eu era um vulto
porque eu não valia um tostão”.

Oh, corpo de papel para a fogueira.


[Elefantes]

Como los elefantes, la mujer
se inquieta ante los huesos de su especie,
mueve nerviosamente la cabeza,
se extravía y tropieza en su dolor.
Los esqueletos largos, mascarones
que arrojaron el mar y el pleistoceno
para dormir, lavados por el agua
hasta volverse láminas de luz,
son una herida abierta y silenciosa
que los grandes mamíferos levantan
con tal delicadeza, con colmillos
en su arabesco y su melancolía.
Porque los elefantes, la mujer,
elevan la osamenta de los suyos
y los acunan con sus grandes dientes,
los mecen con pasión y con trastorno.
Como los elefantes, la mujer
cubre su piel de arena y de termitas,
arroja a sus costillas, su espaldar
la tierra de sus muertos, se recubre
de su aspereza seca, ventolera
o ráfaga de tiempo calcinado
y canta lentamente una canción
que en su baja frecuencia, solo escuchan
congéneres lejanos, primordiales.
Cuando pinta sus dientes de marfil,
dentina opaca y blanca, romboidal
que prestigia su boca y su alegría,
la mujer talla en ellos la aflicción
preciosa, endurecida como laja
que atraviesa la luz y la somete.

(de Atavío y puñal, 2012)



[Elefantes] 

Como os elefantes, a mulher
inquieta-se perante os ossos da sua espécie,
mexe nervosamente a cabeça,
extravia-se e tropeça com a sua dor.
Os esqueletos longos, mascarões
que aventaram para o mar e o pleistoceno
para dormir, lavados pela água
até se tornar lâminas de luz,
são uma ferida aberta e silenciosa
que os grandes mamíferos erguem
com tal delicadeza, com caninos
no seu arabesco e a sua melancolia.
Porque os elefantes, a mulher,
alçam a ossamenta dos seus
e os aninam com os seus grandes dentes,
os mexem com paixão e com toleima.
Como os elefantes, a mulher
cobre a sua pele de areia e de termites,
lança as suas costelas, as suas costas,
a terra dos seus mortos, recobre-se
da sua aspereza seca, ventaneira
ou lufada de tempo calcinado
e canta lenta uma canção
que, na sua baixa frequência, é apenas escutada
por congéneres remotos, primordiais.
Quando ela pinta os seus dentes de marfim,
Dentina opaca e branca, romboidal
que prestigia a sua boca e mais sua alegria,
a mulher esculpe neles a aflição
preciosa, endurecida como uma laje
que é atravessada pela luz e a submete.



[En el aire, la piedra]

En el aire, la piedra ya no duele.
Cuando rueda, recorre con violencia
la edad que se camina hasta ser bronce
y transforma en herida cada lasca.

Limadura, fracción con que el lenguaje
despedaza la piedra en sus dos sílabas
como vocablo hendido y estilete
que afila la humildad de la derrota
para ofrecer la dádiva del miedo,
la floración solar del sacrificio.

Piedra cuchillo, caracola de aire
que encierra los sonidos de la tribu
en el tambor solemne de la guerra,
en la angustia y pezuña de animal,
en la desesperada turbación
con la que Gaza sangra por sus cifras.

Sin embargo, la piedra se resiste.
No está dispuesta a ser domesticada.
Hay en su corazón un alto pájaro.
Hay en ella arrecifes, elefantes,
caminos y escaleras, soliloquios,
las circunvoluciones, el destino,
el álgebra, la luz de las estrellas,
el abrazo de Abel y de Caín.

Hay en su corazón un alto pájaro.
Cuando vuela en el aire, ya no duele.

(de Fiebre y compasión de los metales, 2016)



[No ar, a pedra]

No ar, a pedra já não dói.
Quando roda, percorre com violência
a idade que caminha até se tornar bronze
e transforma a ferida em cada lasca.

Limadura, fração com que a linguagem
esfaragulha a pedra nas suas duas sílabas
como vocábulo fendido e estilete
que aguça a humildade da desfeita
para oferecer a dádiva do medo,
a floração solar do sacrifício.

Pedra cutelo, búzio de ar
que chói os sons da tribo
no tambor solene da guerra,
na angústia e o peçunho do animal,
na desesperada turbação
com que Gaza sangra pelas suas cifras.

No entanto, a pedra resiste-se.
Não é pronta a ser domesticada.
Há no seu coração um alto pássaro.
Há nela arrecifes, elefantes,
caminhos e escadas, solilóquios,
as circunvoluções, o destino,
a álgebra, a luz das estrelas,
o abraço de Abel e de Caim.
Há no seu coração um alto pássaro.
Quando voa no ar, já não dói.

© Texto: María Ángeles Pérez López
© Tradução: Xavier Frias Conde